terça-feira, 1 de abril de 2014

Livro faz um mergulho nos anos 1980


“Sem Rumo” resgata costumes e neuroses de uma época dividida entre a liberdade e o medo

Liliane Prata mostra toda a versatilidade da sua literatura e mergulha num forte tema adulto, nessa que é a sua primeira obra para homens e mulheres. A Editora Planeta do Brasil leva o leitor para o universo dos anos 1980 na obra Sem Rumo, escrito pela mineira Liliane Prata. Ao ligar o rádio ele ouve Blitz, The Clash, Michael Jackson, Duran Duran, Barão Vermelho. Nas ruas, vê Chevettes, Fiats 147, Voyages. Na revista Manchete, lê reportagens ilustradas. Ele é funcionário de uma empresa estrangeira recém-instaladas no Brasil e fuma livremente no trabalho, nos elevadores, nos restaurantes. 

Em casa, tomando cuidado para que Júlia, sua mulher, não descubra, assiste a fitas pornôs no aparelho de videocassete. A liberalidade herdada dos anos 1960 e 1970 facilitou a vida de muita gente, mas logo acontece algo que fará com que as pessoas voltem a se sentir mergulhadas nas trevas da repressão sexual. Certa noite, depois de tomar alguns chopes num barzinho, mete-se numa aventura de consequências imprevisíveis. 

Sem rumo faz uma reflexão sobre várias questões, principalmente sobre a do desejo individual amordaçado por esse exterior social que pode ser amedrontador, “e talvez mais amedrontador ainda naquela década”. Liliane traz para as paginas dessa sua quarta obra as consequências que ocorrem quando não damos voz aos nossos pensamentos adormecidos, às nossas turbulências interiores. “É uma narrativa urbana ágil, envolvente, mas que pretende abordar algumas questões profundas dessa coisa complexa chamada gente”, revela a autora. 

Liliane fez uma intensa pesquisa sobre os costumes da época. Como ainda era nova, em 1984, período da trama, ela revisitou velhos equipamentos eletrônicos, assistiu filmes em VHS, ouviu K7s, dançou e cantou as músicas darks e new waves. Leu sobre desquites, casamentos liberais e a mulher buscando seu espaço no trabalho, a dona de casa se tornado independente. Procurou revistas e jornais para ser fiel aos valores das coisas na nossa antiga moeda, o cruzeiro. Era um tempo em que a inflação mudava os preços diariamente. 

Viu anúncios de prostitutas, propagandas de refrigerantes e de lojas de departamentos como Sears, Mesbla e Mappin. A Boca do Lixo de São Paulo (região que concentra parte da prostituição paulistana) é retratada de forma dura e sincera. Liliane imprimiu um olhar limpo de qualquer saudosismo ou preconceito e captou o comportamento dos homens frequentadores de inferninhos e afins. 

Na metade dos anos 1980 não era só a Aids que atormentava a vida das pessoas, o pseudo liberalismo mascarava os desejos enrustidos em cada um, afrontando e enlouquecendo a cabeça de quem queria se libertar, mas ainda estava aprisionado aos conceitos conservadores. "O Fernando vive o tempo todo no piloto automático, fazendo as coisas sem pensar, evitando ao máximo despertar seus pensamentos e anseios adormecidos. Ele sufoca seus sonhos para viver o que a sociedade determina como sendo um comportamento correto. Com isso, vive numa neurose social, um constante confronto entre o desejo e os dogmas daquela época". explica a escritora. 

Dos costumes aos equipamentos, do estilo de vida às mais execráveis práticas de pornografia, Sem rumo traz de volta uma época refém dos escaldantes anos 1970 e das diversas crises ideológicas embutidas em cada uma das pessoas que conviveram e viveram nos anos 1980. 

LILIANE PRATA nasceu em Formiga (MG), cresceu em Belo Horizonte e esta radicada em São Paulo. Formada em jornalismo e em filosofia, trabalhou durante três anos na revista Capricho e por mais cinco anos como colunista. Autora de quatro livros publicados, atualmente dedica-se quase que exclusivamente à literatura tanto para jovens como para adultos. 

Serviço 

Sem rumo 
Liliane Prata 
Editora Planeta do Brasil 
ISBN: 978-85-422-0305-9 
Ficção, 15,6x22,8 / 200 páginas / brochura 
R$ 26,90

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