quarta-feira, 22 de maio de 2013

MTV Brasil estreia “A menina sem qualidades”



Série de 12 episódios tem um total de seis horas de duração

Antes mesmo de “A menina sem qualidades” ser lançado no Brasil, em 2009, o diretor Felipe Hirsch recebeu do tradutor Marcelo Backes a versão em português do romance escrito pela alemã Juli Zeh. Tomou um susto, como tomam sustos praticamente todos os que leem o livro. É uma história sobre adolescentes completamente diferente das que estamos acostumados a ver, sobretudo na televisão.

O desejo inicial de realizar uma peça se transformou no projeto de uma grande série de 12 episódios, com um total de seis horas de duração. “A menina sem qualidades” é a primeira série de dramaturgia produzida pela MTV Brasil – em parceria com os Estúdios Quanta e Quanta Post. A estreia acontece em 27 de maio, serão exibidos quatro capítulos por semana, de segunda a quinta, às 23h.

“Não estamos inaugurando um segmento na MTV. Queremos, antes de tudo, surpreender nossa audiência, falando a língua dos jovens com liberdade, sem julgamentos, sem pudores. É um conteúdo mais sofisticado do que se encontra na TV aberta”, afirma Helena Bagnoli, diretora geral da MTV Brasil.

Segundo Hirsch, o motor da série é o impacto que a história causa em qualquer pessoa que tem contato com ela. “É normal a diferença entre gerações, com valores, juízos e padrões mudando muito de uma para outra. Mas o livro da Juli radicaliza esse processo.”

Na trama adaptada por Hirsch, Marcelo Backes e Renata Melo, os protagonistas Ana (Bianca Comparato), de 16 anos, e Alex (Rodrigo Pandolfo), de 18, chegam a se considerar pós-niilistas – nem no “nada” eles acreditam. Até nesse aparente vazio existe uma crença, como Hirsch ressalta, mas os dois demorarão a perceber isso.

Em boa parte da série, eles acabam dominando colegas mais frágeis, como Toni (Geraldo Rodrigues) e Joana (Tutti Muller), magoando outros, como Olavo (Rodrigo Pavon), e confrontando professores da escola particular em que estudam, em São Paulo. O erudito Hoffmann (Eduardo Moreira), que dá aulas de História, tem um final trágico. O argentino Tristán (Javier Drolas, do filme “Medianeras”), que tem um passado de preso político durante a ditadura militar em seu país, corre esse risco ao se render a uma chantagem de Ana e Alex, mas acaba se envolvendo de verdade com a adolescente, que também começa a nutrir um sentimento que antes só tivera por uma amiga de outro colégio, Selma (Gabriela Poester).

“Quando Tristán deseja Ana, transgride os padrões. E Ana vai se interessando aos poucos por ele, pela história de sua vida, por sua visão de mundo. Quebra também os seus padrões, a sua descrença”, diz Hirsch.

Antes de Alex ingressar na turma, Ana é uma menina muito inteligente que não parece querer romper seu isolamento, chegando a ser agredida por colegas em função de seu comportamento tido como estranho. Também inteligente mas manipulador, Alex se torna popular na escola, atrai Ana, confere poder a ela e a convence a participar da perigosa sedução a Tristán. O objetivo dele é testar os limites das regras sociais e provar que tudo na vida é um jogo.

“Ele pode não ser mais inteligente que Ana, mas é capaz de seduzi-la. Inclusive sexualmente, embora não faça sexo, pois se diz impotente”, conta Hirsch. “Alex tem uma psicopatia, uma visão extremamente pragmática do mundo. É esse mundo de hoje, em que, se a crueldade funciona, se é vista como algo que dá certo, é bem aceita. O pragmatismo se torna mais importante do que uma visão amorosa do mundo.”

Um dos encenadores mais premiados do Brasil, diretor da Sutil Companhia de Teatro (“A vida é cheia de som e fúria”, “Avenida Dropsie” etc.) e realizador de espetáculos com Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Marieta Severo e muitos outros, Hirsch sempre foi apaixonado pelos chamados romances de formação, os livros que contam como um personagem passou pela adolescência e pela juventude. “O livro da Juli permite um sobrevoo poético sobre essa geração. Não é algo caricatural, como são muitos programas de TV que têm um olhar mercadológico sobre a juventude, pois precisam vender produtos associados a ela. Acho uma grande coragem da MTV botar outra textura no ar”, diz o diretor.

A relação da emissora com Hirsch começou em 2012, quando ele dirigiu o tributo à Legião Urbana com o ator Wagner Moura cantando ao lado de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. A vontade das duas partes de realizar um bis culminou em “A menina sem qualidades”, uma produção fora da rotina da TV brasileira.

A série trata de maneira muito direta de sexo entre adolescentes, violência psicológica, suicídio e outros temas que ainda podem ser vistos como tabus quando se encara o telespectador como mero consumidor.

E ainda é uma produção de qualidade só vista no cinema. No caso, equivale a um longa-metragem de seis horas. A direção de fotografia é do peruano Inti Briones, que foi listado pela revista “Variety” como um dos dez profissionais em sua área nos quais o mundo deve prestar atenção em 2013. “Normalmente, para fazer um projeto de TV, avalio qual é o compromisso da produção, se há um espírito criativo com vontade de investigar a linguagem, de descobrir novas coisas. Para mim, é importante que haja na TV uma produção audaciosa. E este é o caso. A MTV não perdeu o espírito inovador e a busca autoral”, diz Briones, que diz estar evitando na série uma “visualidade artificial” e buscando “a beleza no simples”. “Estamos usando uma câmera solta, mas não enlouquecedora. Ela é livre, leve e varia os suportes de acordo com o sentido do que se está narrando: steady, dolly, câmera na mão, até Iphone. Queremos dar uma textura diferente a cada ponto de vista de nossos maravilhosos personagens adolescentes.”

Hirsch, que já dirigiu com Daniela Thomas o filme “Insolação” (2009), comandou para “A menina sem qualidades” uma seleção de elenco que começou com 9 mil inscritos no site da MTV. Foram escolhidos 60, depois 30, até se chegar aos 15 que formam o núcleo principal de jovens – mas há dezenas de pequenas participações e figurantes.

Bianca Comparato foi chamada para um teste pelo diretor, mas ele já a conhecia de outros trabalhos no teatro e na TV. Ela vem de uma atuação expressiva na novela “Avenida Brasil”, da Rede Globo. “Eu estava esperando uma oportunidade como essa. A cada aumento da complicação do roteiro, mais eu me interessava”, diz a atriz, de 27 anos, que realizou um intenso trabalho corporal para viver uma adolescente de 16. “Ana é bem diferente de mim no seu jeito. Mas a polêmica da história vai fazer as pessoas pensarem.”

Rodrigo Pandolfo, de 28, é outro com trabalhos de destaque no teatro, como “O despertar da primavera”, e na TV (“Cheias de charme”), situação que estimulou Hirsch a convidá-lo para o difícil papel de Alex. “A vida não pode ser tão fácil para atores que têm talento”, diz o diretor.

Wagner Moura faz uma participação como o pai de Alex. Os personagens poloneses do romance viraram argentinos na série, e para interpretá-los Hirsch chamou atores reconhecidos no país vizinho. Além de Drolas, Inês Efron (“Medianeras”, “XXY”) vive Bianca, a sofrida mulher de Tristán. “São dois grandes atores. Javier é um dos maiores com quem eu já pude trabalhar”, exalta o diretor, que diz não ver nenhuma diferença entre a série que está realizando e um filme. “Tudo está sendo feito, inclusive, pensando-se em tela grande. Tem todos os cuidados e requintes de um longa-metragem.”

Serviço

A menina sem qualidades
Estreia: 27 de maio
Exibição: segunda a quinta, às 23h - 12 episódios
Reprises: segunda a quinta, à 00h30 / segunda a quinta, às 22h30 / maratona com os 4 episódios da semana em sequência na sexta, às 22h, no sábado às 23h e no domingo à 00h
Classificação Indicativa: 16 anos

Nenhum comentário:

Postar um comentário